Uma tinta especial é o mais novo inimigo do barbeiro, o inseto vetor do Trypanosoma cruzi, o protozoário causador da doença de Chagas. O médico infectologista João Carlos Dias, do Centro de Pesquisas René Rachou, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Belo Horizonte, está avaliando a tinta inseticida que pode ser aplicada em casas de pau-a-pique e galinheiros, os esconderijos prediletos do barbeiro. Além de exterminar os insetos, o pesticida tem liberação lenta e efeito residual, que pode durar cerca de um ano. A tinta tem também bom aspecto e não deixa odores.

Dias conta que uma nova formulação da pintura, cujos ingredientes ativos são compostos chamados piretróides, está em fase de testes. Nesses ensaios, a tinta é aplicada em galinheiros experimentais. Em seis meses de testes, conduzidos em Minas Gerais, a pintura mostrou-se eficaz contra os insetos e não causou danos em cobaias ou galinhas expostas. O próximo passo – com início previsto para agosto – é tratar 200 casas rurais em Minas Gerais com ambas as formulações. Seu desempenho será então comparado com o do inseticida convencional (alfa-cipermetrina), distribuído pelo Ministério da Saúde.
Para Dias, efeitos cumulativos são possíveis, assim como para todo pesticida. Por isso, o monitoramento com animais segue em andamento. “A parte toxicológica básica está favorável; o acompanhamento de seres humanos expostos na Bolívia nada detectou em mais de um ano de exposição”, diz ele. “O uso [criterioso] e tecnicamente correto de fosforados e piretroides não tem indicado efeitos importantes”, esclarece.
Nas doses adequadas e eficientes, a toxicidade aguda é menor ou no máximo semelhante à dos ingredientes ativos já empregados contra a dengue (fosforados) e Chagas ou malária (piretróides), segundo Dias. “Nos programas tradicionais, o ingrediente ativo vai bruto e solto – teoricamente mais agressivo – e na pintura vai aderido à matriz”. Composta de carbonato de cálcio e resina, a matriz da pintura inseticida é branca, mas pode ser colorida com pigmentos de quaisquer cores, à escolha dos moradores.
Segundo o pesquisador, o uso em larga escada do produto depende basicamente de dois pontos, a ausência de efeitos colaterais para humanos, animais e ambiente e uma boa relação custo-efetividade. Um efeito residual superior a dois anos seria o ideal, na opinião de Dias.
No mercado brasileiro já existe, desde o ano passado, uma tinta repelente. O produto foi lançado visando o nicho de combate à denque. Diferente da tinta da Fiocruz, a repelente não tem efeito inseticida e afugenta insetos usando aditivos de origem vegetal.