Os impactos socioambientais das mudanças climáticas no litoral paulista

Iniciado em 2009 e com duração prevista de quatro anos, um projeto da Unicamp vem estudando o crescimento urbano, a vulnerabilidade e a adaptação às mudanças climáticas no litoral de São Paulo, tanto em suas dimensões ecológicas quanto sociais.

Um grupo de cientistas da Unicamp está estudando as consequências das mudanças climáticas no litoral de São Paulo. Iniciado em 2009 e com duração prevista de quatro anos, o projeto “Crescimento urbano, vulnerabilidade e adaptação: dimensões sociais e ecológicas das mudanças climáticas no litoral de São Paulo” se desenvolve enquanto diversos empreendimentos de grande porte continuam sendo implementados ou planejados para a região.

Entre os temas abordados pelo estudo estão as questões espaciais e demográficas que irão condicionar a adaptação das populações costeiras às mudanças climáticas, os conflitos sociais em relação ao uso de recursos naturais, a atuação de governantes locais e regionais e os impactos na biodiversidade. A equipe do projeto é formada por cientistas de diversas áreas, entre eles demógrafos, cientistas sociais, biólogos e ecólogos. São pesquisadores e alunos do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) e do Núcleo de Estudos de População (Nepo), ambos da Unicamp, além de colaboradores de outras instituições, sob a coordenação geral de Daniel Hogan, pesquisador do Nepo e do Nepam.

Os cientistas dos dois núcleos de pesquisa têm anos de experiência em estudos na região do litoral paulista. “Mas, na área de mudanças ambientais globais, é a primeira grande pesquisa empírica que nós vamos fazer”, conta a pesquisadora Leila da Costa Ferreira, do Nepam. O estudo é parte do Programa Fapesp de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais, que reúne outros nove projetos. “Somos dez grandes grupos de pesquisa analisando a questão das mudanças climáticas. Isso não é fácil em qualquer lugar do mundo. Do ponto de vista da política científica, institucional, vai ser um impacto muito grande”, avalia Leila Ferreira, que coordena o componente do projeto responsável pelo estudo das políticas públicas relacionadas às mudanças ambientais globais.

Quinze municípios do litoral de São Paulo, além de Cubatão, estão sendo estudados pela equipe da Unicamp. A região de Caraguatatuba concentrará boa parte das pesquisas, porque é para ela que estão sendo planejados empreendimentos como o Centro Integrado de Tratamento de Resíduos Sólidos, a Unidade de Tratamento de Gás de Caraguatatuba, o Gasoduto Caraguatatuba-Taubaté, a ampliação do porto de São Sebastião e a duplicação da rodovia Tamoios.

“O impacto dessas grandes obras, em termos de opinião pública, dos moradores locais, é impressionante”, conta Lúcia da Costa Ferreira, do Nepam, coordenadora da equipe que analisará questões ligadas aos conflitos entre expansão urbana e cobertura florestal. Para a pesquisadora, as populações de Caraguatatuba, Ubatuba e São Sebastião têm consciência da dimensão dos empreendimentos, ainda que não haja consenso sobre seus impactos. Entre as preocupações está a possibilidade de perda da vocação turística da região, principalmente em Caraguatatuba. “Por isso, o projeto foi muito bem-vindo. Não estamos levando a eles um tema. Estamos compartilhando um tema que pra eles é premente”, argumenta Lúcia Ferreira. Ela lembra que a região tem uma longa trajetória de mobilização política.

O pesquisador Roberto do Carmo, do Nepo, membro da equipe voltada ao estudo de questões demográficas, aponta outro aspecto da análise de impacto dos empreendimentos, relacionado ao potencial de geração de empregos. Carmo lembra que as obras de construção civil absorvem grande quantidade de mão de obra não-qualificada, que acaba como excedente. “É uma situação bastante complexa e que temos visto com frequência no Brasil. As pessoas chegam, se instalam, trabalham e, quando acaba aquela construção, não conseguem uma inserção mais definitiva. Isso gera uma série de dificuldades para as pessoas e para a cidade, que muitas vezes não consegue se estruturar pra recebê-las”, argumenta Carmo.

De acordo com o projeto, os investimentos em infra-estrutura ligados à extração e transporte de petróleo e gás vão condicionar as medidas de mitigação, as vulnerabilidades socioambientais e ecológicas e as respostas adaptativas às mudanças climáticas. Mitigação, vulnerabilidade e adaptação, além dos ricos, são conceitos que permeiam as discussões sobre o tema, como explica Carmo. O pesquisador aponta que a mitigação esteve em evidência na cobertura da Conferência do Clima (COP-15), com a discussão do que fazer em relação às emissões CO2 frente ao aquecimento global. “É um tipo de discussão importante, mas no qual a questão da organização do sistema produtivo acaba se sobressaindo sobre os outros elementos que talvez sejam mais importantes, relacionados com a dinâmica social: riscos, vulnerabilidade e adaptação”, explica Carmo. “É importante pensar na mitigação, mas isso não leva em conta que já existe uma situação hoje em que esses eventos extremos e outros fenômenos, como os riscos decorrentes da elevação do nível do mar, por exemplo, já estão tendo impacto sobre a população”, completa o pesquisador.

É importante identificar as situações de risco e os grupos populacionais que as vivenciam, a vulnerabilidade desses grupos e os recursos que podem mobilizar para enfrentá-los. “É preciso começar a pensar também em adaptação; em como a sociedade, os grupos sociais, os indivíduos vão se adaptar a essa nova realidade; em qual conjunto de políticas públicas vai ser importante pra que esses grupos sociais possam se adaptar”, defende Carmo.

O estudo da Unicamp vai definir áreas prioritárias para a análise da vulnerabilidade, que Carmo lembra estar relacionada não só à exposição aos riscos, mas à capacidade de resposta a eles. “Não é só a questão da elevação do nível do mar, mas é como as pessoas ou grupos sociais estão organizados ou que tipo de ativos sociais e econômicos possuem para enfrentar esses riscos. Pode ser que populações expostas aos mesmos riscos, com a mesma condição econômica, venham a ser mais ou menos vulneráveis em decorrência dos ativos não só econômicos, mas de acesso a políticas públicas, organização social”, argumenta o pesquisador.

Para Leila Ferreira, a questão das mudanças climáticas globais tem diferentes dimensões e, nesse contexto, as ciências do clima têm tido um avanço maior do que as áreas voltadas às dimensões humanas. “Quando se analisa isso internacionalmente, é gritante. Não só do ponto de vista do número de cientistas na área das ciências do clima e na das dimensões humanas, mas em termos de verba”, argumenta a pesquisadora, que defende a integração entre as ciências naturais e as sociais na análise do tema. “O que pretendemos fazer é pensar as dimensões humanas do ponto de vista dos conflitos sociais, das políticas públicas, da dinâmica demográfica e da biodiversidade. Pensar mudanças climáticas nas suas diferentes dimensões, focando as dimensões humanas”, argumenta Leila Ferreira.

Lúcia Ferreira, do Nepam, afirma que tanto as ciências ecológicas quanto as sociais possuem dimensões próprias, mas há, entre elas, a região de interface dos sistemas socioecológicos. “É sobre isso que nós vamos falar. Há uma interface, que a gente costuma chamar de lugar do uso de recursos, que não pode ser olhada só sob o ponto de vista da sociedade ou sob o ponto de vista dos sistemas biológicos. Uso de recursos é o nosso diferencial”, defende.

A equipe do projeto trabalha com a perspectiva de que as previsões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estão, de maneira geral, corretas. Para Carlos Alfredo Joly, pesquisador do Instituto de Biologia da Unicamp e do Nepam, a queda de credibilidade do IPCC é, em parte, resultado de interesses econômicos. “Como em todos os trabalhos de síntese em que se usa uma base muito ampla, pode-se ter erros, mas são pontuais. No geral, eles são altamente confiáveis e as diretrizes, as grandes conclusões, têm base científica para suportar”, avalia o pesquisador. Joly coordena a equipe que analisará impactos na biodiversidade.

Ele lembra que não há dados históricos para a região que permitam avaliar se as mudanças estão acontecendo. Sistemas de medida estão sendo implantados em um momento em que essas alterações podem já estar ocorrendo. Para Joly, antes que inundações de áreas costeiras sejam percebidas, serão notadas alterações no sistema de saneamento. Com mudanças no nível do mar e na pressão da coluna de água, é provável que alguns dos emissários submarinos que hoje jogam esgoto a alguns quilômetros da costa passem por um processo de reversão. Há, ainda, a possibilidade de salinização de pontos de captação de água para as cidades.

Para a equipe do projeto, as incertezas em relação às mudanças climáticas fazem parte da pesquisa em geral. “Nenhum tema científico, intelectual, no meu ponto de vista, não tem o campo da incerteza, da dúvida”, defende Leila Ferreira, do Nepam. “É um tema polêmico, controverso, mas como qualquer outro tema da ciência. Quanto mais pesquisa a gente fizer e quanto mais estudos desenvolver, melhor e maior será a polêmica”, completa a pesquisadora.

IPT investe em pesquisas nanotecnológicas

Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), acaba de adquirir microscópio eletrônico de varredura, que permitirá o aprimoramento de pesquisas na área de nanotecnologia. Setores farmacêutico e de cosméticos são alguns beneficiados por essa linha de estudos.

A possibilidade de produzir materiais por meio de princípios nanométricos acabou mudando completamente os métodos atuais de fabricação de produtos utilizados em áreas como biotecnologia, medicina e farmacologia. Estima-se, por exemplo, que cerca de 600 produtos contendo nanomateriais estão no mercado em todo o mundo. Pensando nesses avanços científicos em escala nano – prefixo usado para designar um bilionésimo) – o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) acaba de adquirir um microscópio eletrônico de varredura (MEV), que permitirá aprimorar pesquisas nessa área.

“A ideia central é expandir o uso do equipamento para todos os laboratórios do IPT que busquem respostas em uma escala micrométrica ou nanométrica”, disse Marcelo Moreira, pesquisador do Centro de Tecnologia de Processos e Produtos (CTPP) do IPT. Um dos projetos de pesquisa em que o MEV dará suporte é na caracterização da espessura e morfologia de materiais visando a preparação de nanofibras aplicadas em novas vias de uso de medicamentos através de patches (adesivos). Diferente do uso de comprimidos, os adesivos têm a vantagem de liberar de maneira controlada os ativos farmacológicos na pele do paciente.

Segundo Moreira, o MEV recém-adquirido tem a vantagem de ser utilizado em diversos projetos que vão além de linhas de pesquisa em nanopolímeros e nanocosméticos. Com certas peculiaridades que o fazem diferente dos microscópios de varredura convencionais, o novo modelo possui uma fonte de elétrons FEG (field emission gun, em inglês), a qual permite uma alta ampliação da imagem, e um sofisticado sistema de vácuo. “Em termos de resolução, um MEV convencional atinge de 20.000 a 80.000 vezes, com a fonte FEG pode-se atingir de 300.000 a 500.000 vezes”, afirma Moreira.

A partir de um investimento do Governo do Estado de São Paulo de 1,046 milhão de euros, o CTPP conta ainda com uma câmara criogênica capaz de congelar amostras a serem analisadas no MEV. “Com esse modelo de microscópio e com a câmara criogênica, podemos observar qualquer tipo de material: metálico, não-metálico, células e materiais orgânicos contendo água”, diz o pesquisador, explicando a capacidade do MEV de caracterizar uma ampla gama de materiais.

Na opção de baixo vácuo pode-se observar amostras não-condutoras, assim como no modo de vácuo ambiental é possível caracterizar amostras contendo água em sua composição – recurso fundamental para viabilizar pesquisas em centros de biotecnologia. Nessas opções de vácuo a amostra sofre menos alterações para ser visualizada, isto é, interfere-se menos na estrutura da amostra por não ser mais necessária a retirada de água ou cobri-la com um material condutor (como o ouro) no momento da observação. Mais uma curiosidade é que o MEV permite observar organismos vivos, que podem se movimentar na hora da visualização.

Novo centro de bionanotecnologia

Entre as novidades de pesquisas na área nano, o IPT deve inaugurar, no final de 2010, o Centro de Bionanotecnologia, que vai agregar estudos em biotecnologia (desenvolvimento com organismos vivos), tecnologia de partículas (microencapsulação de componentes químicos e terapia medicinal, como em cosméticos), micromanufatura de equipamentos e metrologia.

Uma das propostas do centro, cuja edificação deverá custar em torno de R$ 21 milhões, é conter uma área destinada a encontros de pesquisadores para a discussão de projetos relacionados em nanotecnologia. No começo deste ano, o IPT reuniu representantes de empresas, centros de pesquisas e universidades no intuito de criar uma rede de inovação do Sistema Brasileiro de Tecnologia (Sibratec) na área de nanocosméticos.

A rede temática de centros de inovação tem como objetivo atender demandas específicas do setor de cosméticos por meio de uma maior aproximação da comunidade acadêmica com as empresas. Até então, foram articuladas 11 redes temáticas Sibratec de centros de inovação.

Como está a colaboração entre institutos de pesquisa e setor produtivo?

Na busca por entender em que pé está a situação de colaboração entre pesquisa científica e empresas no Brasil, há cerca de dois anos, pesquisadores do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas constituíram um grupo de pesquisa que começa a mostrar resultados.

Atualmente, uma das maiores preocupações relacionadas ao desenvolvimento econômico de um país reside na produção de inovações. Em uma comparação entre a economia emergente brasileira com outras já bastante desenvolvidas, como a dos Estados Unidos e do Japão, uma das diferenças mais perceptíveis está nas relações dos centros de produção de saber, como universidades e institutos de pesquisa, com as empresas privadas que constituem o setor produtivo. A simbiose entre esses dois setores é cada vez maior nos países desenvolvidos, enquanto no Brasil essa interação ainda patina. Na busca por entender em que pé está a situação de colaboração entre pesquisa científica e empresas no Brasil, há cerca de dois anos, pesquisadores do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) constituíram um grupo de pesquisa que começa a mostrar resultados.

Em linhas gerais, o projeto do DPCT visa entender o padrão atual, no Brasil, de colaboração entre universidades e institutos de pesquisa com as empresas privadas, mirando na produção de inovações tecnológicas. São quatro anos previstos de trabalho, sendo que dois deles já foram transcorridos. O projeto faz parte de uma iniciativa internacional encabeçada por Richard Nelson, da Universidade de Columbia, uma das autoridades mundiais sobre o tema.

Como esclarece Wilson Suzigan, um dos pesquisadores do grupo, o projeto passou pela fase de levantamento e discussão da literatura teórica sobre o assunto, produzida principalmente por autores de países centrais, economicamente desenvolvidos, como os Estados Unidos e boa parte da Europa, e de um país em desenvolvimento que se destaca nessa relação entre pesquisa e setor produtivo, a Coreia do Sul. O objetivo é saber se essa produção teórica seria útil para entender o caso brasileiro.

Em seguida, os pesquisadores do DPCT prepararam um levantamento para entender melhor o perfil tanto dos grupos e instituições de pesquisa quanto das empresas que interagiriam com eles. Usando a base de dados do CNPq para chegar aos líderes de grupos de pesquisa do país inteiro e aplicando um questionário, o grupo da Unicamp conseguiu encontrar mais de 2.300 grupos de pesquisa que se declararam interagindo com empresas privadas. “A ideia é comparar os grupos de pesquisa que colaboram com aqueles que não colaboram com o setor produtivo”, afirma Suzigan.

Dos 2.300 grupos que afirmaram alguma interação com empresas, 1.005 deram respostas que possibilitaram um detalhamento dessa interação, inclusive tornando possível ao grupo do DPCT chegar às empresas envolvidas na colaboração com centros de saber. O primeiro trabalho resultante desses estudos foi apresentado em fevereiro de 2009, em seminário internacional sobre o tema em Seul, na Coreia do Sul, e publicado em dezembro pela Seoul Journal of Economics. Essa primeira produção do grupo de Suzigan volta-se, por enquanto, apenas para o lado das universidades, tentando entender qual a visão dos pesquisadores que interagem com empresas privadas – por exemplo: se fazem projetos conjuntos ou se apenas prestam consultoria.

Suzigan diz que, com relação aos levantamentos voltados para entender o lado das empresas, tem sido muito mais difícil extrair informações que iluminem o problema: das 1.005 empresas abordadas, apenas 326 responderam ao questionário. Suzigan lembra que a relutância em responder à pesquisa se deu, fundamentalmente, entre empresas que são de setores economicamente estratégicos ou de fronteira tecnológica. Embora os resultados preliminares ainda estejam sendo escritos, Suzigan adianta algumas surpresas, como a constatação de que as universidades são procuradas para desenvolver projetos em conjunto com as empresas, e não apenas para prestar consultoria – embora a consultoria de pesquisadores ainda tenha importância nas interações pesquisa-empresa.

Uma das conclusões preliminares desse projeto é a de que os benefícios que advêm da colaboração entre empresas e pesquisadores são muito valorizados pelos dois lados. Há uma clara troca e transferência de conhecimento entre os setores, afirma Suzigan. Os pesquisadores ganham um precioso conhecimento ao qual, de outra forma, talvez não tivessem acesso; enquanto as empresas conseguem complementar seu conhecimento técnico-científico, aplicando-o na produção de inovações. O objetivo final do grupo de pesquisa da Unicamp é justamente sugerir políticas públicas que implementem e façam aprofundar, no Brasil, essas interações fundamentais para o desenvolvimento econômico contemporâneo.